A ‘Casa da Eficiência’ sob a presidência da simpatia

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A primeira entrevista da primeira presidente, eu nunca vou esquecer: ANGELA COSTA, recém-empossada na cadeira que pertenceu ao Barão de Mauá levou para a Associação Comercial do Rio de Janeiro (ACRJ) sua bagagem cheia de experiência, competência e eficiência – sem esquecer o brinco, o batom e o sorriso. Nesta segunda entrevista – da coluna CONVIDADA DE HONRA / VIP (Very Important President), dedicada ao debate com grandes lideranças do setor produtivo brasileiro -, Angela, simpática e objetiva, informa que a Casa do Empresário está pronta para abraçar a todos e lutar por todos.

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Por ALEX CAMPOS  |  Foto: Lucas Farizel (ACRJ)
Fonte: JB FM

Alex – Em primeiro lugar, é presidente ou presidenta?
Angela – Presidente! Sempre!

Então devemos apresentá-la como a primeira presidente da ACRJ…
Com certeza. O mais importante é destacar a honra que eu tenho por estar ocupando este lugar. Essa é a Casa do Empresário que realmente sempre teve grandes nomes que ajudaram a construir não só o Rio de Janeiro, mas também o Brasil. Independente de ser homem ou mulher, a possibilidade de estar sentada nesta cadeira me dá muita honra e ao mesmo tempo muita responsabilidade.

E que planos você tem como a primeira presidente da ACRJ…
Essa casa tem a missão de ajudar o Rio de Janeiro, principalmente neste momento difícil que está passando. Uma crise que todo mundo diz que é econômica, mas que eu acho que é, na raiz, política. Essencialmente, ética. Por isso entendo que nós temos que trabalhar tanto na questão dos desafios, dos conteúdos, como na questão ética. Nós temos aqui pessoas competentes, profissionais qualificados e estamos formando comitês, comissões ou conselhos capazes de pensar e produzir estudos ou relatórios importantes para tirar o Estado do Rio dessa situação.

É quase um consenso que o país evoluiu muito na área econômica, empresarial, mas não evoluiu na área política. Como conciliar esse desencontro do avanço econômico com o atraso político?
Eu acho que chegou a hora do empresário entender que tem que dar sua contribuição…

Mas como fazer isso se o político não se aproxima do empresário e não ouve o empresário…
O político tem medo do empresário, mas o empresário também tem medo do político. Quando se aproximam, eles pensam que um ou outro está sempre querendo tirar proveito próprio. Veja o exemplo da suspensão dos benefícios fiscais concedidos pelo governo do Estado a empresas fluminenses, que, num momento mais crítico, foram cancelados. “Para! Suspendam os benefícios”. Param os benefícios, mas ninguém parou para analisar as contrapartidas, os investimentos feitos com base nesses incentivos. Não se discutiu a matéria, os ganhos, os impactos positivos conquistados. Acabaram e pronto.

Que atitude você acha que os empresários deveriam ter tido nesse episódio?
Nós, empresários, temos que pensar e agir com a cabeça diferente, entender que temos responsabilidades e temos voz. Precisamos que essa voz seja mais firme, mais ouvida. E esse é outro grande objetivo dessa Casa: reforçar a representação empresarial diante dos desafios. O político, por sua vez, precisa entender que o negócio do empresário não é “ganhar mais dinheiro”, mas, sim, estimular e colaborar para o crescimento do estado e o desenvolvimento sustentável da sociedade, onde “todos possam sair ganhando”.

Ter voz, reforçar representação… Parece haver aí também um desafio de comunicação.
Sim, mas isso envolve também a imprensa. Acho que vocês da imprensa têm papel fundamental no sentido de também dar a sua contribuição. A imprensa é a grande formadora de opinião. Precisa mostrar a responsabilidade de cada um, e não mostrar só as coisas ruins. Nós temos no Rio de Janeiro essa tendência de mostrar tudo o que ruim. Em outros estados, eles lá amenizam. Não pense que São Paulo tem índices de criminalidade menores que o nosso. É maior. E o que alardeamos de ruim no Rio acaba contaminando o Brasil. Em qualquer lugar do mundo, os países tentam evitar o nível de transparência negativa que nós temos aqui.

Por exemplo…
Eu cito o caso da Operação Carne Fraca. De uma quantidade imensa de frigoríficos em todo o país, tivemos três, quatro ou cinco, no máximo, apanhados em flagrante com problemas sérios. E isso afetou toda a rede, toda a cadeia de exportação de carnes. A repercussão internacional foi imensa. O mundo inteiro falou disso…

Mas a imprensa não pode deixar de falar disso, mesmo que tenha sido um assunto mal “processado” pelas autoridades, concorda?
Sim. Concordo. Cabe às autoridades filtrarem melhor certos assuntos. Veja esse caso do carnaval do Rio. O prefeito está na situação de precisar diminuir a verba do Carnaval. Eu não sou contra, nem a favor. É mais uma questão que tem que ser estudada tecnicamente. Mas saiu na imprensa: “Prefeito corta metade da verba das escolas de samba”. O que aconteceu? Lá fora, todos os pacotes de viagem para o Carnaval do Rio foram suspensos. Isso traz um grande prejuízo para a nossa economia. E não é só o Carnaval: há impactos para a indústria hoteleira, para os restaurantes, bares, lojas, para todo o comércio. Não é por acaso que o prefeito de São Paulo, João Doria, está sinalizando para os turistas irem para lá. E daí que vão para lá, para Buenos Aires, para Nova York…

Nos dois episódios que você citou, o da carne e o do Carnaval, nós temos problemas de comunicação. Mas você não acha que o empresário, em especial, se comunica muito mal?
Acho que sim. O empresário se comunica muito mal. O empresário realmente é um péssimo comunicador. E isso tem agravantes porque a imprensa no afã de dar a notícia o mais rápido possível, no afã de dar o furo, acaba ampliando o estrago da comunicação (que veio) ruim. O problema é que, depois que se constata e apura a informação com maior precisão, o estrago já foi feito. Mas compreendo que esse imediatismo não é intencional, é funcional, faz parte da dinâmica da imprensa.

As entidades associativas, federativas ou confederativas têm suas qualidades. Não seria interessante que, antes, algumas ou todas se juntassem a fim de multiplicar essas qualidades para, depois, levá-las ao poder público? Não é possível essa integração?
Isso não era possível. Hoje a ACRJ tem a missão e a disposição de unir, juntar e conversar. Já estamos conversando com a Firjan (Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro), já temos parcerias com o Sebrae (Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas), temos que nos aproximar do CDL (Clube dos Diretores Lojistas) e, você tem razão, temos que nos aproximar de todas as entidades, umas das outras. Vemos com bons olhos esse entrosamento, sim. Eu aproveito para convocar os empresários do Rio de Janeiro a participar da ACRJ. Esse é, de fato, um momento em que nós temos que unir nossas forças. É um momento em que temos que fortalecer a nossa representação. Aos seus 208 Anos, a ACRJ é a entidade que pode abraçar a todos e lutar por todos. Esse é o meu pedido a vocês, empresários, que venham se juntar a nós e apoiar a nossa luta em defesa do Rio, principalmente nessa situação delicada por que todos passamos.

Mas volto ao problema lá do isolacionismo político do poder público. Como transpor isso?
Além dos estudos estatísticos, nós podemos levar ao poder público a vivência e a experiência da massa dos empresários. São poucos os empresários que se relacionam com o poder público, A grande massa mesmo se comunica com a gente, com as entidades. Nós escutamos melhor e vemos de perto a aflição que estão passando os empresários, em sua maioria. E, como a ACRJ, é a Casa do Empresário, vale dizer que nós somos aqui a Casa do Comércio, da Indústria, da Agricultura, dos Serviços, das Finanças…

Você concorda que o Brasil precisa de mais poder feminino? Ou não é esse o problema do país?
Eu acho que o Brasil precisa é de mais igualdade de condições. Essa é a questão essencial. Eu sou a primeira mulher de uma entidade de 208 anos. Fui a primeira mulher na diretoria executiva de uma entidade das indústrias, no país! Ontem eu estive na reunião da CNI (Confederação Nacional da Indústria). Fui lá representar a Firjan. Nessa reunião, eu ainda sou a única mulher. Digo isso para mostrar que, estatisticamente, há comprovação de que precisamos de mais mulheres no comando. Até porque há comprovação de que o poder intelectual é igual entre os gêneros.

Você acha que ainda prevalece um corporativismo machista?
Prevalece, sim, um machismo no sentido de que a mulher é “boa colaboradora”, que está aí para “colaborar”, e isso, claro, não faz mais sentido. Essa ideia precisa ser mudada, e esse é um trabalho que a gente já vem fazendo. Não sou feminista, não levanto bandeira, não gosto de ser identificada por gênero, mas o mundo tem que melhor isso.

Que grande mulher inspira ou inspirou você?
Minha mãe! Eu perdi minha mãe quanto eu tinha 11 anos. Mas, para mim, apesar da minha pouca idade, foi suficiente para aprender com ela a necessidade de estudar, de ter garra e de que querer é poder.

Agora uma pessoa conhecida no Brasil ou no mundo. Que grande nome inspira ou inspirou você?
Margaret Thatcher (primeira-ministra do Reino Unido de 1979 a 1990). Era uma mulher fiel aos seus ideais. Ela tinha firmeza de propósito. E isso não é pouca coisa. A mim, impressiona muito o entendimento dela de que o Estado não é um produtor de riqueza, que a empresa, sim, é produtora de riqueza.

Qual é a sua regra de ouro?
“Não faça nada que, ao deitar, perturbe sua cabeça e perturbe seu sono”.

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